A entrevista estava marcada para
uma das esplanadas da Casa da Guia, em Cascais. Mas, por causa da chuva, teve
de ser feita no condomínio privado onde vive Simão Sabrosa, no Estoril. O
avançado, que vai fazer 35 anos a 31 de Outubro, lembrou as histórias de
infância, contou episódios sobre Van Gaal ou Mourinho e garante: não quer ser
treinador.
Como foi a sua infância em Constantim, perto de Vila Real?
Andava sempre a jogar à bola na rua. E depois, como a casa dos meus pais é
ao lado do campo de futebol, ia para lá com o meu irmão [Serafim Sabrosa]. As bolas que
iam para o nosso terreno ficavam lá até que o roupeiro do clube as ia procurar.
Eu, quando apanhava alguma andava com ela até que o roupeiro ma pedia de volta.
Com 10 anos foi jogar para o Diogo Cão, de Vila Real. Porquê?
Havia um senhor de Constantim que me via a jogar na aldeia e como
trabalhava na escola Diogo Cão decidiu falar com o professor José Maria para eu
ir lá fazer um treino. Fui e fiquei.
Como foi a sua estreia?
Contra o Chaves. Antes de entrar estava nervoso e fui falar com o meu
irmão, que era o meu conselheiro. Ele tranquilizou-me. Entrei ao intervalo e
marquei dois golos, ganhámos 5-2.
Jogava nos infantis e nos iniciados.
Sim, aos sábados jogava pelos infantis, com miúdos da minha idade, e aos
domingos de manhã estava nos iniciados. Eu adorava. Era pequenino, mas corria
muito. Jogava a avançado centro e marcava muitos golos.
Treinava quantas vezes?
Três ou quatro vezes por semana.
Era uma vida cansativa?
Sim, chegava a casa às 21h30. No dia a seguir tinha de me levantar às 7h,
para ir para as aulas, e por isso às vezes ia logo para a cama, nem jantava.
Pedia ao meu irmão para me fazer os trabalhos. E ele fazia. Se ele não
estivesse em casa, deixava-lhe uma nota. Ou então, de manhã ele acordava-me
mais cedo e ajudava-me.
Foi complicado ir para o Sporting, com 13 anos?
Muito. Nunca tinha estado em Lisboa. Fiquei no lar do Sporting, no antigo
estádio José Alvalade, os quartos ficavam por baixo da bancada nova, ficávamos
quatro em cada quarto.
Quem foram os seus colegas?
O Nuno Santos, guarda-redes, o João Paulo, um brasileiro, e o Alfredo Bóia
[médio que jogou no U. Leiria, Paços de Ferreira e Nacional]. Depois, também
chegou a ficar lá o Boa Morte.
Os seus pais iam visitá-lo regularmente?
Sempre que podiam, mas como tinham a vida deles – o meu pai era carpinteiro
e a minha mãe doméstica – era complicado, porque a viagem de autocarro demorava
nove horas.
Matava as saudades pelo telefone?
Sim. Tínhamos direito a fazer quatro telefonemas por semana, mas eu já
conhecia a telefonista do Sporting e conseguia dar-lhe a volta e telefonava
todos os dias. Chorei muitas vezes ao telefone e muitas vezes estive para
desistir e voltar para casa.
Alguma vez disse: “Não aguento mais isto, quero ir-me embora”?
Muitas. Quando falava com a minha mãe dizia-lhe, a chorar: “Quero ir-me
embora”. E ela: “Filho, se não te sentes bem, vamos tratar disso”. Mas no dia a
seguir as coisas entravam na rotina de voltar a estudar e a jogar e passavam.
As dificuldades obrigaram-me a crescer.
Como era a sua vida em Lisboa?
Tínhamos de ir às aulas, na escola de Telheiras, depois tínhamos os treinos
e a seguir era jantar e recolher. A entrada, pela porta 10A, era até às 22h. A partir
daí geríamos o nosso tempo. Só passados dois ou três anos é que começámos a ter
pessoas lá em permanência, quando veio o Leonel Pontes [actual treinador do
Marítimo], e o senhor Paulo, que ainda está no Sporting.
Ficavam a ver televisão ou a jogar cartas até às 2h da manhã?
Havia de tudo. Mas, como tínhamos acesso ao campo de futebol de salão e de
hóquei em patins ou de andebol, a seguir ao jantar ficávamos lá muitas vezes a
vê-los treinar.
Estreou-se na equipa principal do Sporting com apenas 17 anos.
Com 16 anos assinei contrato profissional e na época seguinte estava nos
juniores, mas treinava muitas vezes com o plantel principal. Estreei-me contra
o Salgueiros. E marquei um golo que nos deu o apuramento para a Liga dos
Campeões.
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Dia da apresentação no Barcelona, em 1999 |
Mudou-se para o Barcelona com 19 anos. Foi cedo demais?
Não. As oportunidades aparecem e temos de agarrá-las. Foi difícil deixar o
Sporting, porque estava numa fase muito boa, era da casa, mas fui para um dos
maiores clubes do mundo.
Em termos financeiros, era uma proposta irrecusável?
Foi uma excelente proposta.
Foi ganhar quanto? O dobro do que recebia no Sporting?
Não vou falar de valores, mas talvez mais do triplo.
Que recordações tem de Barcelona?
Apesar de não ter ganho nenhum título, a nível pessoal foram dois bons
anos, porque treinando e jogando com os melhores do mundo acabamos sempre por
aprender e melhorar. No segundo ano, o Figo, que era o meu ídolo, foi para o
Real Madrid e acabei por jogar mais. Mas na parte final houve ali um momento
caricato, porque saiu o Serra Ferrer [treinador] e entrou o [Carles] Rexach.
Ele quando era jogador era extremo, mas como treinador não jogava com extremos.
Então, eu, o Overmars e o Zenden ficávamos no banco.
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Quando chegou a Barcelona, "Figo recebeu-me bem e ajudou-me" |
Tinha uma boa relação com Figo?
Sim, estávamos juntos muitas vezes, íamos almoçar, jantar. Também tinha a
ajuda do Rivaldo, que era o meu companheiro de quarto.
Esteve no Barcelona com José Mourinho e Van Gaal. São dois treinadores com mau
feitio?
Sim, o Van Gaal era duro.
Deu-lhe alguma descasca?
A mim não, ele era mais duro com aqueles jogadores mais experientes, com
mais responsabilidade. Dava muitas descascas. Em todo o lado, nos treinos, nos
jogos. Era muito rigoroso: por exemplo, quando viajávamos tínhamos de ter
sempre a gravata e o botão do colarinho apertado. E não podíamos usar
telemóveis no autocarro ou no balneário.
E como é que era José Mourinho?
Tranquilo, sempre com piadas e brincadeiras. De manhã dava-me cópias dos
jornais e de notícias que tirava da Net. Era muito atencioso.
E já queria ser treinador principal?
Ele não falava nisso, mas ambicioso como era, claro que queria ser. Ele já
tinha estado com o Bobby Robson, um dos melhores treinadores do mundo. E no
Barcelona era ele quem preparava e dirigia os treinos, o Van Gaal ficava só a
observar. Portanto, ele já tinha essa experiência, já tinha uma base. Uma vez
fui a casa dele, em Sitges, e no último andar ele tinha lá os seus cadernos com
as tácticas todas, tudo bem organizado.
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Dia da apresentação no Benfica, em 2001 |
Em 2001 foi para o Benfica, mas até esteve para ir para o Sporting.
Eu queria sair do Barcelona, e na altura surgiu a hipótese de regressar ao
Sporting. Cheguei a reunir com pessoas do Sporting, mas eles queriam-me apenas
por empréstimo, devido aos valores que o Barcelona pedia (12 milhões de euros).
O Benfica pagou esse valor e eu fui para lá. É verdade que fui para um rival,
mas como profissional não ia recusar.
Mas nunca lhe perdoaram. Em especial por causa daquela sua afirmação num
Sporting-Benfica, em que o Sporting se ganhasse era campeão e disse que queria
ir a Alvalade estragar-lhes a festa.
Sim. Foi uma declaração infeliz, feita sem pensar, até porque o Sporting
dependia só de si. Mesmo que o Benfica ganhasse, como veio a acontecer, só iria
adiar a festa. E eu também nem ia jogar, estava a recuperar de uma lesão. Foi
um erro.
Foi campeão com Trapattoni na época 2004/05. Lembra-se de alguma história com
ele?
Ele tinha uma energia incrível, e era muito divertido. Um dia, fui-lhe
pedir uma folga para a equipa e ele: “Não, vai tu, vai tu”. E eu dizia-lhe: “Não,
mister, eu estou aqui como capitão, a pedir para a equipa. Ou é para todos ou
então esqueça”. E ele: “OK, dois dias de folga, então”.
Hoje, é simpatizante do Benfica?
Sim. Fui sempre bem tratado pelas pessoas do Sporting, mas no Benfica
estive seis anos, fui uma referência, fui capitão, fui campeão… os adeptos
adoram-me e eu adoro o Benfica por todas as alegrias que lá vivi.
Em 2007, foi para o Atlético de Madrid. Nunca pensou em acabar a carreira no
Benfica?
Pensei, e gostaria que isso tivesse acontecido, mas a verdade é que surgiu
a possibilidade de jogar noutro campeonato. Fiz um contrato melhor, estive lá
três anos e meio e também fui muito feliz: ganhei a Liga Europa e a Supertaça
Europeia.
É verdade que em 2005, quando esteve para ir para o Liverpool, ia entrar no
avião quando lhe disseram para não embarcar?
No avião, não, mas estava no aeroporto. Era o último dia de transferências
e estava com a selecção. O plano era viajar, fazer os testes médicos, assinar e
voltar para a selecção. Havia acordo entre os clubes, mas depois ligaram-me do
Benfica a dizer que tinham cancelado.
Tem alguma mágoa por não ter ido jogar para Inglaterra?
Era um dos meus sonhos, mas acabou por não acontecer. E também estive para
ir para o Chelsea por duas vezes, primeiro quando estava no Benfica, e depois
no Atlético de Madrid. Da primeira vez [2005], era o Mourinho que me queria
levar para lá, houve contactos, mas como foi em Janeiro disseram-me que não me
podiam deixar sair naquela altura, estávamos a lutar pelo título. E com o
Scolari foi a seguir ao Euro 2008, mas o negócio acabou por não se fazer.
E como é que foi jogar na Turquia, no Besiktas?
Foi espectacular. Fui para lá em Janeiro de 2011 e ganhámos a Taça. Depois
houve uma grande confusão, no início da época seguinte, em que o presidente e o
vice-presidente foram presos [por suspeitas de corrupção], e então os jogadores
que tinham sido levados por eles, como foi o meu caso, acabaram por sofrer as
consequências. Como tínhamos ordenados elevadíssimos, tivemos de sair, eu
mudei-me para o Espanhol, para Barcelona. Mas a Turquia é o sítio onde as
pessoas são mais fanáticas por futebol. E eu adoro Istambul.
Está sem clube. Vai continuar a jogar ou vai acabar a carreira?
Espero jogar pelo menos mais dois anos. Já tive algumas ofertas, mas que
não me satisfizeram, porque acho que tem de ser algo bom.
Teve propostas de onde, dos EUA, dos países árabes, da Índia?
Sim, tive da Índia, e também de outros países, mas não aceitei, porque sei
aquilo que quero e vou ficar à espera que isso possa acontecer. Continuo a
treinar todos os dias com um preparador físico para estar em forma. Estou
ansioso por voltar a jogar.
E depois de acabar a carreira, poderá ser treinador?
Gostava de ficar na área de gestão desportiva, a trabalhar num clube.
Agora... treinador, acho que seria castigar muito a família, porque um
treinador tem de preparar os jogos e os treinos de manhã, à tarde e à
noite.
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Com a actual mulher, Vanessa Rebelo |
Quais são os seus hobbies?
Agora, é cuidar dos meus filhos. O bebé [o filho com a actual mulher,
Vanessa Rebelo] tem três meses, tenho de ajudar em casa. E adoro jogar futebol
com o meu filho Martim, de 11 anos, e com o Rodrigo, filho da minha mulher, que
tem 5.
Decidiu preservar as células estaminais do cordão umbilical do seu filho. Foi
também para as poder usar em possíveis lesões suas?
Foi para acautelar eventuais problemas com o Simão Salvador. Mas também
servem se eu tiver lesões. Por exemplo, o Di María usou essa técnica antes do
Mundial do Brasil.
Gosta de música?
Sim, compro tudo através do iTunes, para poder ter no telefone e no iPod.
Tem algum cantor preferido?
Vários. Por exemplo, gosto do Usher. E num estilo mais romântico há o
Alejandro Sanz, que conheci quando estava em Madrid e é meu amigo.
Também costuma ouvir Marco Paulo, por influência da sua mãe.
Quando ela ia ter comigo a Madrid ou a Istambul, e estava a cozinhar, tinha
de ter sempre as músicas do Marco Paulo. A minha mãe adora-o.
Gosta de cozinhar?
Faço só o mais básico. Esparguete, arroz, grelhar carne... Agora, pratos
mais elaborados já não me peçam.
Prega partidas aos seus
colegas?
Sim, aprendi com os mais velhos. Eu era sempre o mais novo e
ficava caladinho e ia vendo o que eles faziam. Depois, comecei a fazer também.
Que tipo de coisas é que fazia?
Ao almoço, se iam à casa de banho colocava-lhes sal na água ou na
Coca-Cola. E pendurava as roupas deles com combinações que não tinham nada a
ver, para todos se rirem.
In: Revista Sábado